1) A Trupe 18 18UTC Fevereiro 18UTC 2009
trupedasmuiezinha @ 3:45 am
Aos companheiros médios. A quem alcança o mundo do seu quarto e através do seu computador, da sua TV e pelo elevador do seu condomínio. De dentro do carro refrigerado, da sua vaga no estacionamento pago do seu bureau do escritório. Aos que se alimentam das prateleiras dos supermercados e dos delivery por interfone. Aos que honram compromissos e trepam pela Internet. A quem conhece de tudo pelo jornal matinal e se enfurece com as notícias, tão alheias, que vêm. Aos que daí lamentam a ignorância e passividade dos outros. Aos sujeitos cuja tolice deve-se menos à incapacidade de enojar-se do que às alternativas que se apresentam para vencê-la: que te resta cidadão? Arremessar o controle remoto na televisão? Trancar-te no escritório e fazer a revolução? Planejar com os amigos teu projeto de nação? Supor que o que queres é pela população? Quando fechas os olhos a mercadoria ainda dança. Ainda dança.
Minha estupidez, meu igual, vem do comedimento do meu nojo também. É um asco tão prudente e moderado que jamais deixo que solape meu consolo. Tudo em mim é tão médio e responsável que, embora colecionando mais uma reclamação por reconhecer meus atos evidentemente sonsos, sinto uma preguiça muito maior que a indignação para chegar ao ponto de apresentar a mim mesmo alternativas alternativas às que se apresentam. E sigo a vociferar em vão. Ao serviço de reclamação.
Mas se tomássemos a perua do Largo da Batata ao Campo Limpo saberíamos que os hits de teclado da periferia não aparecem no Faustão; como o sustento dos peruanos soprando flautinha se forja na Consolação; e o pregador com uma bíblia na praça da Sé encaminha tantos para salvação. Que a cidade que corre apartada de nós é espaço para a ocupação. E o pastor, o teclado e o Amado Batista – vanguarda desta aguda compreensão – são adversários na disputa deste espaço que excede seus muros de lamentação.
Que se exorte o Zé Celso a extrapolar o Oficina e o Chico Buarque a largar do Tom Brasil. Que as escolas de samba sigam seu carnaval para fora do Anhembi e que os mendigos se banhem no chafariz. E que nós… que nos reunamos e organizemo-nos para ocupar a cidade e tomá-la do sub-prefeito da Sé. Ou que leiamos os nossos jornais, consternados.
