Trupe das Muiezinha

1) Heróis 24 de fevereiro de 2010


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Há muito tempo – cerca de três anos atrás – o Psico escreveu um texto sobre Zorro e o Batman, onde concluía que o Zorro era “melhor” que o Batman. Mas o texto não era sobre os heróis, mas sobre o papel deles no mundo. O texto era muito bom. Tempos depois achamos o escrito e concordamos que, na verdade, ele era meio fraquinho. Nada demais. Mais recentemente – um ano atrás – o Rafa recuperou o texto e escreveu outro a partir dele, falando agora do V (de Vingança). A partir daí retomamos toda uma discussão. O engraçado é que o texto original, que deu ensejo a tudo, que fora considerado excelente e depois ruim, voltava a ficar maravilhoso. Não sabemos o que passou no período. Talvez não seja o mesmo texto, mas versões diferentes na forma. Não importa.

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Zorro x Batman

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Qual é melhor herói? Zorro ou Batman? Zorro e Batman são homens muito ricos. O primeiro “viveu” na Califórnia mexicana, antes da expansão estadunidense até a costa oeste e fazia parte de uma elite ligada à coroa espanhola. Zorro era um inconfidente, mas não só. Uma vez que seus iguais sustentavam os desígnios Del Rey e escorchavam a população, ele achava dois motivos para combatê-los: precisamente a independência e o bem estar da população. Enquanto usufruía (aos moldes de Bolívar, Che e outros) das benesses da fortuna de seu bondoso pai, D. Alejandro, na condição de digno herdeiro D. Diego – aprendendo esgrima, equitação, letras, viajando, nutrindo-se, exercendo influência sobre seus pares, a política, a polícia etc – combatia a aristocracia utilizando-se da identidade mítica do Zorro. Seu Alfred é o mordomo, Bernardo, e a população o adora.

O benevolente Bruce Wayne vira herói a partir da violência cometida contra seus pais na metrópole imaginária de Gotham City. O menino que vê os pais assassinados torna-se um adulto sombrio, misterioso, convenientemente cordial e fechado. Ao contrário do bem-humorado Zorro, tem como características, sob sua máscara de homem morcego, a malícia, ações sorrateiras e, freqüentemente, crueldade ao assediar seus oponentes com entorces psicologistas em busca de confissões.

O herói é uma alternativa aos protetores corriqueiros (deus, polícia, pais). Os super-heróis ocupam mesmo o lugar dos deuses no mundo de hoje. Maomé e Jesus são espécies de super-heróis. Mas eles não estão no sistema humano de proteção ou zelo. À parte da milícia, polícia, juizes, existem os heróis. Eles mesmos decidem por que interferir, julgam seus prisioneiros, os métodos de combatê-los etc. Os heróis são um sistema judiciário completo! O Homem Aranha decidiu não deter o bandido que matou seu tio Ben e depois, arrependido, decidiu pendurá-lo de cabeça pra baixo numa teia até a polícia chegar. E nem era concursado! Mas eis a grande diferença entre os dois heróis: mesmo sendo os heróis em geral esse aparato jurídico completo, mesmo sendo estes dois heróis movidos pelas próprias convicções e revelando (e sobretudo Batman) personalidades um tanto rebeldes e comportamentos que não são tidos como exemplares, como tortura psicológica, invasões de propriedade sem mandado judicial etc, o Homem morcego guarda na Bat-Caverna uma linha direta com o Comissário Gordon (que também pode chamá-lo através do Bat-Sinal). Zorro, ao contrário, é procurado pelo exército e não se cansa de debochar do pamonha do Sargento Garcia. Apenas na condição de Diego é que tem boas relações com o paspalho e mesmo assim o despista habilmente. Batman torna-se assim um braço ilegal da lei. Lei? O Herói traz para a esfera privada todas as decisões (julgamento, procedimentos, o que é legal ou ilegal – ele legisla), inclusive a própria decisão de tornar-se herói. Mesmo assim, Batman acaba assumindo um conceito de justiça institucional. Zorro não! Este preserva o essencial do herói. Ele é um personagem que atua mesmo e principalmente contra a lei, contra a institucionalidade. Talvez Zorro repreenda sim, como diz o Franklin Martins, um “popular” por furtar galinhas, mas não adota simplesmente, ao contrário de Garcia, o conceito de justiça corrente. Batman não podia ter sido cooptado pela institucionalidade. é o contra-senso: ninguém vira herói se há um sistema suficiente.

O Mundo suficiente também não suplica por mudanças que valham as vidas. Quem quer os limites do ethos corrente? Mesmo os limites ilegais (sonegação, por exemplo)? E quem topará subverter seus próprios motivos?

Quero vê-los Zorros.

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(Psico)

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Quero vê-los V

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O Super-Homem ainda não chamou o V para se integrar à Liga da Justiça. Mas, também, se o fizesse, pouco adiantaria, não é? Tenho a leve impressão de que ele não aceitaria tal convite. Ora, o V não é daqueles heróis que vimos sua história contada, recontada e desenhada. Sua passagem, assim como sua face, foi misteriosa e veloz. Ninguém sabe muito ao certo onde fica o porão em que monta seus planos e tira seus cochilos. Ninguém sabe como ele faz para se sustentar (comer ovo com pão, comprar o melhor aço pras espadas e navalhas, pano pras roupas, filmes e televisão etc).

Enquanto Bruce Wayne usa de desvio de carga e dinheiro para criar o fantástico Batman (no desenho, quando se monta o espaço físico da Liga da Justiça, no espaço, Bruce Wayne diz ao IR, à imprensa e aos sócios das empresas Wayne que está aplicando dinheiro em tecnologia marinha. No filme, Batman Begins, Bruce compra em excesso um produto “x” para poder aplicar tal excesso no arsenal do herói mascarado), V consegue seu pequeno arsenal através de roubos (ao menos é o que demonstra em cenas como quando ele assiste, junto a Evey, ao filme O Conde de Monte Cristo.

Quanto mais diferenças se vê entre o V e o Batman, mais semelhanças há entre Zorro e V. Não seria útil ficar escrevendo todos os defeitos do homem morcego, pois isso tudo já foi constatado no texto Zorro vs Batman. Daí, o que se torna interessante é fazer uma comparação entre V e Zorro, apontando a lente apenas para o herói londrino. Afinal, as peculiaridades de Dom Diego já foram muito bem escritas.

V nasce numa Londres de regime totalitário. Ele era cobaia de experimentos científicos feitos pelo Estado totalitário, liderado pelo ditador Sutler. Numa catástrofe qualquer, o “campo de concentração” onde estava nosso herói pega fogo, e, a partir dali, ele se liberta. Monta seu esconderijo secreto e começa a traçar sua vingança. Assim como Batman, V sofre por um trauma na vida. E por isso, além de um ódio político, V sente um ódio pessoal. E exatamente isso que o faz tentar a vingança.

É, como Zorro, adorado pelo povo londrino, além de ser procurado pela ditadura dali. Mas, diferente do Zorro, V não é um fora da lei que apenas é procurado. O objetivo de Sutler é ver o herói londrino morto. Ou seja, não é apenas um paspalhão qualquer que quer a cabeça do mascarado de Londres, como acontece nas histórias do Zorro. Afinal, sabemos que, apesar de representar todo um sistema nojento, o Sargento Garcia, quando tem Zorro nas mãos, apenas o quer preso, e nada mais.

Ora, são esses detalhes que faz V se tornar muito mais interessante que o mascarado mexicano. V é revolucionário. Ele não se preocupa apenas com os fatos que acontecem ali no quintal de sua casa, como faz Zorro. V, diferente de Zorro, não apenas combate o crime de desvio de carga, aliás, ele pouco se importa com isso. A briga do V é maior, contra um inimigo claro. V quer (consegue) pulverizar todo um sistema político. Ele, quando explode o parlamento inglês, destrói toda uma organização política, para deixar o próprio povo inglês escolher o que fazer dali pra frente. V, no seu ato final, mobiliza (mobilizar, talvez não seja a palavra certa, uma vez que V não pretende esse tipo de coisa. Os milhões saem a rua por livre e espontânea vontade) milhões, que, em marcha, dissolvem todo um exército que estava armado até os dentes. O exército simplesmente fica imóvel, sem ação. Ademais!! V consegue, ao longo da história, cativar o representante da lei londrina, o detetive Finch, que sem muita resistência, libera a destruição do parlamento.

Ora, quero vê-los V pelo fato do herói se desprender de qualquer problema menor. Ele apenas foca sua ação para romper e virar de ponta cabeça o sistema.

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(Rafa)

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Quero vê-los: V x Z

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Acho interessante o mote. Adoro o V. Mas acho que não iria por esse caminho. Não se trata de ser mais ou menos incendiário; mais ou menos revolucionário; mais ou menos legalista… O V pode ir além do Zorro… mas é porque na história do Zorro não há final feliz. A condição de opressão do povo mexicano é requisito pro início do próximo capítulo. V de vingança tem um final feliz. É um conto de fadas sombrio. Se houvesse um final feliz pro Zorro, seria a independência mexicana e a não opressão da população pelos caudilhos. Isso é igualmente revolucionário.

A questão central que quis abordar no texto Zorro x Batman, foi o fato de – mesmo sendo o herói, por essência, uma alternativa que está além da institucionalidade; mesmo estando o herói num plano equivalente ao divino; alguns procuram ser agentes do status quo, à serviço não de suas convicções, mas do estado geral hegemônico. É o Superomem se apresentando como defensor do mundo, subordinado à ONU (no desenho). Se o aparato existente fosse suficiente, não precisaria existir herói. Simples assim. O Robocop não é herói. Ele é um plano institucional. O Batman não. O Batman é uma resposta a insuficiência da institucionalidade. Ele (sem super-poderes) cumpre um papel inexistente até então. Não por falta de homens bondosos ou que pensem como ele (comissário Gordon e o Alfred são exemplos. No filme também os promotores e o presidente das empresas Wayne lá). A questão é que ninguém cumpre o papel do herói.

O mesmo pode ser dito com relação ao Zorro ou o V. Ambos tem uma multidão de “correligionários” dispostos as se arriscarem pra esconder o mascarado mexicano ou enfrentar o exército pelo mascarado londrino. Não por eles exatamente, mas pela identificação com suas ações. Só que ninguém desses é o herói. O herói foi um papel necessário, extra-institucional e inexistente até então para aquela mobilização. Um herói não se candidata em eleições.

Aí você tem um grande ponto a explorar: o que todos fazem pra garantir sua extra-institucionalidade; pra, mais que isso, se desvencilharem das amarras institucionais impostas mesmo aos cidadãos enquanto respondem exclusivamente por si? O que o homem-aranha faz pra proteger a Tia May e o Clark Kent pra não ser chantageado? Não apenas não agem dentro da institucionalidade (como jornalista, fotógrafo, sobrinho, comissário, empresário, namorado, promotor etc) como sequer agem como cidadãos. Todos inventam um personagem com cuecas por cima das calças e assim, simplesmente inexistem. São mitos. Como personagens não tem qualquer amarra.

Assistam ao Batman – veja o que o Coringa faz quando percebe que o mascarado gosta da promotorinha. Vejam a justificativa do Batman pra assumir uma culpa por coisa que não fez (no fim). Ele não tem cara! Ele pode sumir. E o maior desafio que o Coringa impõe a ele é que tire a mascara e adquira suas amarras! O Coringa é foda! O Batman também. E o melhor – o bat-sinal é quebrado no fim. Contei. Mas é!

Não tão brevemente assim…

O ponto a desenvolver: Batman – Bruce Wayne;  Superomem – Clark Kent;  Zorro – D. Diego;  Homem-Aranha – Peter Parker; V. – ?.

O V  só age no nível do mito. Que potência isso traz?

Quero vê-los: V x Z

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(Psico)

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Oscar x Batman

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Fiquei sabendo que a nerdaiada tá p. da vida porque o Batman não foi indicado para o Oscar, exceto em categorias técnicas e a homenagem póstuma do Ledger. E aí já há quem justifique porque o Batman não deveria mesmo ter sido indicado em outras categorias.

Bom, acho que há dois erros gritantes nessa questão. O Primeiro é achar que o Batman ter sido ou não indicado ao Oscar em outras categorias deve-se a questões artísticas e discutir em cima disso.

E o segundo erro, e mais importante, é que a própria análise artística analisada no Blog Hell Fire não pega o ponto principal.

Nós já postamos aqui vários textos sobre os heróis e o papel deles. Pra não repetir o assunto, vou ser bem direto. A questão a ser desenvolvida (mas que não teria sido) em Dark Night não é que o Coringa “É aquele antagonista que leva uma história de “bandido e mocinho” para outros níveis, porque ele faz o próprio herói se questionar, repensar as atitudes”. E o filme não é bom porque o Coringa é Foda.

Dark Night é muito bom porque ele põe em xeque e expõe aquilo que é essencial num herói: até que ponto ele está a serviço da ordem e até que ponto ele está fora da ordem estabelecida? Até que ponto sua máscara representa um ser capaz de assumir a universalidade? Até que ponto o herói pode ficar preso a contextos pariculares?

O Antagonismo Batman vs Coringa assume outros níveis porque o Coringa é, salvo engano, o único grande vilão que tem máscara, como os heróis, mas com um detalhe a mais. Ele assumiu a máscara. Ele radicaliza a libertação dos grilhões da particularidade. O Coringa é louco não porque é louco, mas justamente porque a máscara é a própria face dele. Ele não tem uma outra vida, fora da Máscara (ao contrário de Lex Luthor, por exemplo).

Uma amigo escreveu uma vez sobre máscaras, a propósito de um outro texto que saiu numa revista argentina. Lembrava ele que a máscara tem a função de fazer parece o que não é. Contudo, às vezes queremos parecer o que não somos e acabamos sendo o que não queríamos.

Acho que a verdade do Coringa é essa. O Rosto dele é a máscara. E ficamos sem saber se ele é o que não é, se parece ser o que é, ou se representa justamente as pessoas que acabam sendo outro que o que pretendiam ser.

Uma piada macabra é, convenhamos, nada humorística. Não é nem humor negro. Portanto, a questão do Coringa não é seu humor. Nem sua loucura. A questão central é saber o quanto representamos e o quanto não representamos, até onde vão as nossas Máscaras. Sabendo disso, o Coringa exigiu que o Batman se revelasse, tirasse a máscara dele. Ate´que ponto a força do Herói está em sua Máscara? Até que ponto essa é também a sua fraqueza?

Isso é um grande roteiro, não há dúvida. Se merecia o Oscar? Sinceramente, o Oscar não merece o Batman. O que não significa que seria melhor mesmo não ganhar o Oscar. Mas esse é assunto pra outro post…

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(Maceió)

 

2 Responses to “1) Heróis”

  1. rafa Diz:

    Não tinha lido esse seu texto, Macei! Gostei!

  2. Manoel Galdino Diz:

    Você precisa acessar com mais freqüência o meu blog, Rafa.
    Macei


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