Trupe das Muiezinha

Junho: Copa na África do Sul e Falatório sobre a África do Sul em SP 5 de junho de 2010

Filed under: Falatório — Manoel Galdino @ 9:03 pm
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Como junho é mês da copa… e mês do Falatório… Publico aqui texto que tem tudo a ver com os dois assuntos (copiado do blog do Juca Kfouri) e que ajuda a justificar um pouco a escolha da data.

(Manoel)

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O Guarda Costas

Por ANDRÉ KFOURI

(publicada quinta-feira, 4 de junho,  no diário Lance!)

Eram sete pessoas na mesa. Seis jornalistas brasileiros e um segurança sulafricano, ex-soldado do exército que, durante oito meses do ano, trabalha como guarda-costas da família real de um país árabe. Ele é um dos guias da ESPN aqui na África do Sul.

Bom momento para uma conversa sobre o país da Copa. Mas era preciso ter cuidado, sensibilidade para ouvir as opiniões de um ex-militar, branco, a respeito do que a África do Sul era e é.

“Faço parte da ‘geração perdida’”, ele diz. “Tenho 42 anos e não tive escolha. Ou ia para o exército ou para a cadeia”. Nosso amigo é de uma época em que as crianças brancas sulafricanas cresciam ouvindo que negros não eram gente. “Mas na minha casa, felizmente, formávamos nossa opinião”, pondera. “Se dependesse de mim, as mudanças no país teriam acontecido muito antes”.

Olhos se arregalam na mesa redonda da ótima casa de carnes de Joanesburgo. O interesse aumenta. O que você pensa de Nelson Mandela?, pergunta um colega. “É um ícone humano”, ele responde. “Eu o vejo como se fosse meu avô”, completa.

Meu papel ali era o de intérprete. Nem todos na mesa falavam inglês. Nosso segurança estava claramente surpreso pelo papo. Nós, absolutamente gratos pela oportunidade.

É impossível chegar à África do Sul despido de pré-conceitos, mas é preciso querer ouvir. E é necessário pelo menos tentar entender o que não nos faz sentido: falar sobre racismo nessa parte do mundo é mais ou menos como falar sobre drogas com holandeses. O que sabemos, o que pensamos, simplesmente não se aplica.

Ou talvez se aplique, sim. “Eu gosto da nova África do Sul”, diz nosso guia. “Mas o problema da tensão racial não foi resolvido, ainda há um longo caminho a seguir”.

Outro colega quer saber se ele assistiu a “Invictus”, filme dirigido por Clint Eastwood em que Morgan Freeman interpreta Nelson Mandela e Matt Damon faz o papel de François Pienaar, o capitão que levou a seleção sulafricana ao título da Copa do Mundo de Rugby de 1995, logo após a chegada de Mandela à presidência do país. “Li o livro primeiro, depois vi o filme”, ele responde. O diálogo que se se segue:

- Aquele momento foi mesmo tão importante?
- Talvez tenha sido o momento mais importante da nossa história.
- Nós podemos acreditar que aquele jogo teve tanto impacto?
- Absolutamente sim.

Por incrível que pareça, os olhos do sulafricano na mesa são os únicos secos. Parte da emoção vem da cena que acontece ao lado. A garçonete que nos atendia, negra, tinha se hipnotizado pela conversa. Prestava máxima atenção na tradução das perguntas, nas respostas e na nossa reação. Ela chamou dois colegas, também negros, e eles ficaram ali, ouvindo.

Se a Copa do Mundo acabar hoje, sem um mísero toque na bola, para mim já valeu.

 

Filme Invictus 19 de maio de 2010

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Há tempos eu admirava o Mandela, mas conhecia bem pouco sobre a história dele. Recentemente vi o filme Invictus, do Clint Eastwood, e até escrevi no meu blog (antes de ver o filme) sobre o assunto. Reposto aqui o texto que o Mandela dá para o Pienar (no filme o texto que ele dá é o poema que postamos antes). O texto é do presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, e foi proferido por ele numa palestra na França. O título é Man in the Arena. Eis um pedaço do texto (completo, aqui), em inglês e com tradução minha:

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It is not the critic who counts; not the man who points out how the strong man stumbles, or where the doer of deeds could have done them better. The credit belongs to the man who is actually in the arena, whose face is marred by dust and sweat and blood; who strives valiantly; who errs, who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming; but who does actually strive to do the deeds; who knows great enthusiasms, the great devotions; who spends himself in a worthy cause; who at the best knows in the end the triumph of high achievement, and who at the worst, if he fails, at least fails while daring greatly, so that his place shall never be with those cold and timid souls who neither know victory nor defeat.

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Minha tradução:

Não é o crítico que conta; nem aquele que aponta como o forte tropeça, ou onde os atos de um homem prático poderiam ter sido melhores. O crédito pertence ao homem que está em ato na arena, cuja face é marcada por poeira e suor e sangue; que luta valorosamente, que erra, que vacila uma vez e de novo, porque não há esforço sem erro e fraqueza; contudo aquele que realmente se esforça para atuar, que conhece grande entusiamos, as grandes devoções, que se entrega a uma causa valorosa, que no melhor momento conhece no final o triunfo da elevada realização, e que no pior, se ele falha, pelo menos falha enquanto ousa grandemente, de tal forma que seu lugar não deve ser jamais com essas almas frias e tímidas que não conhecem a vitória nem a derrota.

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É uma tradução difícil, embora mais fácil que o poema. Algumas dificuldades que tive:  “doer”, pelo que entendi, é simplesmente aquele que faz, o fazedor (do-er, como ‘maker’). Há um texto, se não me engano do Borges, cujo título é El Hacedor. Difícil traduzir pro português, já que ‘o fazedor’ não é muito adequado.

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Deeds seria ‘feito’, ‘ato’ ou ‘ação’, de forma que “doer of deeds” seria “o fazedor de feitos” ou “fazedor de atos”. Mas fica ruim assim. Escolhi “os atos de um homem prático”, que também é ruim. Pensei em atos de um ator, de forma que ator seria aquele que faz atos. Talvez não fosse longe da origem do termo ator, mas ia passar um sentido muito diverso com o significado atual de ator em português.

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Outra parte que gostei no original, mas de difícil tradução, é quando ele diz: who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming. A origem de “shortcoming”, ao que parece, é justamente short + coming, que é justamente o que ele diz antes de usar shortcoming: “who comes short again and again”. Ou seja, ele faz um jogo de palavras muito difícil de traduzir. Eu optei por “vacila” (comes short) e fraqueza (shortcoming), mas obviamente é uma tradução limitada.

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Esse excerto é obviamente um elogio ao homem prático, ou homem de ação, que assume os riscos de não ficar parado, contemplando ou apenas criticando sem colocar a mão na massa. O homem na arena (título) é também uma referência explícita às arenas romanas. No discurso completo, Roosevelt fala da importância do cidadão comum e dos líderes para o sucesso de uma democracia. Falando para uma audiência que era elite na França, alerta para os deveres (duties) dessa elite. No parágrafo que precede ao excerto postado, diz: “beware of that queer and cheap temptation to pose to himself and to others as a cynic, as the man who has outgrown emotions and beliefs, the man to whom good and evil are as one. The poorest way to face life is to face it with a sneer”. E ainda “…There are many men who feel a kind of twister pride in cynicism; there are many who confine themselves to criticism of the way others do what they themselves dare not even attempt”.

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Discurso ‘surpreendentemente’ atual em face dos comentários feitos pelos “especialistas” em política externa sobre a tentativa recente do Lula de negociar um acordo no Irã. Mas isso é outra história…

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(Manoel)

 

 
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